do chilique ao último clique, uma sintética história da linguagem humana

no princípio era o verbo, solo, terreno adâmico a fertilizar
depois é que vieram as orações subordinadas, os gramáticos,
pānini, trácio, fernão de oliveira, e o evanildo bechara.
e os estudantes viram que não era nada bom.

então cada tribo em seu estribo desinventou sua própria língua,
de modo que todos pudessem se desentender perfectamente.

e assim foi parido o google, inserindo a sensação sensacional de que estamos a sumir num cisco um risco cascata à la windows entre um link e noutros.

como é escassa a vida, e o vento não espera,
eis q as terminologias, as elucubrações, os devaneios,
e o raciocinar fundamentado foram lançados na lixeira do hd ex terno

e os (mau)falantes passaram a emitir semitons incompletos
msgs cifradas numa hashtag intermitente,
espécime de ré-produção uno fono mono mofo semântica,
e viram q ainda assim erram subentendidos.
ou não:

aí, sim!
boa!
é bem isso!
top!
dez!
legal!
faz sentido (!)
num-sei-o-quê

e o escritor ou (viu) que não era nada som

Algumas pessoas tem atitudes que dificultam a vida, tem palavras demais na boca. Por isso prefiro esse jeito meio na minha de levar a vida. Nem sempre estou disposta a brigar e as vezes me faço de boba, mas observo mais do que falo. Gosto de dar corda pra ver até onde os espertos vão, mas não puxo, deixo que se enrosquem na própria esperteza. Quem fala demais tropeça nas palavras e se forem palavras mentirosas então, aí a queda é feia mesmo.***

* fonte da imagem: pinterest

o futebol moderno

para matheus barreiro

é um jogo de prós e contas

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* de simples recreação esportiva em meio a ociosos momentos de fazer lazer a arroubos e arrombos monetários intergalácticos, o futebol moderno é também o maior produtor de excrescências humanas e des. talvez o matheus, meu sobrinho, quando sugeriu o tema ao tio não esperasse por resposta diferente da. saiba, meu caro aspirante, que o futebol vai do rumor ao tumor num intervalo de um olé. é o que é. e apito, afinal.

um sopro poético numa recriação bíblica

mencionei no texto tóhu vavóhu (ver publicação) que as traduções várias dos textos bíblicos desentendem o caráter poético e semanticamente explosivo de uma parcela imensa de textos hebraicos e gregos. no entanto, há momentos em que o sublime perpassa o viés tradutório e alcança níveis dignos de um ruflar de uivas e vivas.

a tradução comum para o verso ix do capítulo v da carta aos gálatas do rabino shaul, o apóstolo paulo de tarso, é a seguinte: um pouco de fermento leveda toda a massa. no original grego é mais ou menos assim: mikra zymi olon to fyrama zymoi. com pequenas variantes, é possível ler em outras versões: um pouco de fermento leveda a massa inteira (nvi) ou ainda: un poco de levadura leuda toda la masa (reina valera). un peu de levain fait lever toute la pâte (louis segond). na tradução do judeu messiânico david stern está assim: é preciso só um pouco de hametz para levedar toda a massa. a vulgata latina reproduz modicum fermetum totam massam corrumpit, o que ainda é uma trivialidade antimusical, pois a vulgata tem relances bem melhores. lutero, por sua empreita, traduz para o alemão de sua época: ein wenig sauerteig durchsäuert den ganzen teig, o que seria, aproximadamente, um pouco do fermento levedado (amargou) a massa inteira. tal e qual as demais citadas. aliás, todas elas exalando um odor banal, corriqueiro, ordinário. não há o sopro poético, nem o vigor, nem a beleza estética. não há a explosão calórica a que se referia um meu professor de semióticas, isto é: o pulsar poético a bailar imponente em prosódias assonantes, ressonantes, aliterativas. antes, as traduções simplistas são uma espécie de murcha-flor, ou seja.

conheci também uma interessante tradução, disponível para download na web, do senhor benjamin wilson. ele publicou o texto grego do novo testamento e uma sobreposição literal interlinear em inglês, em 1864. é a famosa operação tradutória palavra por palavra, uma tradução seca.  literalmente ao texto grego, ele dá: a little leaven ferments the mass it leavens (um pouco de fermento toda a massa que ele leve). na tradução formal, equivalente ao grego: a little leaven ferments the whole mass (um pequeno fermento fermenta toda a massa).

mas a que me encanta pela sua fluidez sonora e prosodicamente poética é a recriação de giovanni diodati (1576-1649) para o italiano. o tradutor da célebre la sacra bibbia ossia l’antico e Il nuovo testamento era teólogo de confissão protestante genebrina. em sua arte na tradução do verso em análise, ele cria uma partitura musical na belíssima linguagem italiana que sublima e eclipsa todas as demais línguas supracitadas. eis a prova:

un poco di lievito lievita tutta la pasta

ainda que seu sentido literal seja o mesmo dos demais tradutores citados, diodati valeu-se do léxico da península da bota para musicalizar o verso-partitura em arte-textura. a leitura é imensamente prazerosa, e nos dá a ideia de que há um andamento melódico perpassando cada palavra/nota numa cadência vibrante e irresistível! basta citar, para efeito comparativo, outra versão ao italiano: un po’ di lievito fa fermentare tutta la pasta. ou seja, a pedra de toque de diodati faz a diferença. eis a explosão de que falava o antigo mestre.

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brevíssima história do professor brasileiro para quem tem presa

de tutor-rabino-mestre-magister-a-professor-opressor-oprimido-sequela-mais-que-imperfecta-espécime-em-ex-tinta-extinção-a-sumir-num-duplo-clique-perfecto.

* fonte da imagem: redes sociais, sobre o caso da professora márcia friggi, de santa catarina, que levou um nocaute numa aula de pugilismo adolescente por um incontinente idem.