adâm, o nomenclator

e afigurou O-Nome-Deus
da terra húmus todo animal do campo
e toda ave do céu
e os fez vir até o homem (adâm, o terroso)
para ver como ele os chamaria
e todas como as chamasse o homem
almas-de-vida assim seu nome
e chamou o homem por um nome
todo animal-gado e toda ave do céu
e todo animal-fera do campo

bere’shith ii,xix/xx
transcriação, a partir do hebraico, pelo poeta haroldo de campos, brasileiro sim senhor.

o poeta pedro xisto, num texto sobre o rosa, escrito em 1957, diz que toda a problemática da linguagem substancial foi disposta entre nume e nome (nume pode ser lido como poder divino) antes de serem denominados, os seres eram ausentes. xisto proclama que a poesia começa por tornar possível a linguagem. sendo, fundamentalmente, missão do poeta, o nomear os entes. adâm, para xisto, é uma espécie de proto-poeta. haroldo de campos, em comentário à sua transcriação dos capítulos iniciais do bere’shith, anuncia: adâm, o nomenclator ! o termo é historicamente romano, um escravo que tinha como missão guardar, memorizar nomes para seu senhor, um esquecido-ausente.

o nomear é um vasto tema. desde adâm estamos a laborar e a inventar nomes para tudo o que nos cerca. acerca disso discorreram os grandes pensadores de todas as épocas. não vou abrir aspas e citá-los porque cabe ao curvilíngua também inventariar seus próprios moldes. o bom leitor que se vire com aqueles. cada um a seu modo. a seu nome. a seu molde.

pretendo direcionar esta conversa a um nível canino. há tempos que o curvilíngua está a meditar em nomes. de cachorros, em especial. desconfio que adâm, o nomenclator, tenha olhado um cãozinho e disparado, assim, a esmo, preguiçosamente: canis lupus!, canis familiares! até onde a minha insipiência linguística vai, adâm nunca foi bem em latim. era, como se sabe, nato e profundo sabedor da língua matriz. ou língua edênica. ou seria a linguagem do céu? afinal, em que gramática e dicionário adâm pescou os nomes para a sua fauna antológica? e o senhor, o eterno, dialogava com adâm em língua tal e qual animal? nunca saborearemos.

mas vamos ao que compete ao curvilíngua. sim, os nomes dos cães, ou perros, or dogs.  devo adiantar ao lector que o curvilíngua não tem um canino em casa, ainda. mas há um projeto para. portanto, deve começar pelo nome. o ser ausente precisa ganhar um status de existência ao ser graduado, intitulado, rotulado, estereotipado. nomeado, isto é. mas que nome dar, se não tenho esse faro linguístico de um adâm edênico? mas o lector poderia indagar sobre um certo atavismo cromossômico, espécie de gente lesa gera gente lesa.  sim, é possível. ainda sinto as palavras como que arenosas em minha boca. tenho uma memória olfativa que me faz cercear os odores ancestrais; sei distinguir, não sei explicar como é que sei, mas sei diferenciar entre um rastejar astuto a serpentear e um caminhar sereno, maroto, quase malicioso, a espiar um adâm corado pelo atos, pelos rastros, pelos gestos, pelos pastos. tenho então os atributos que me qualificam a prosseguir nessa empreita intitulável? se é que !

os cães, essas criaturas que inebriam seus donos, recebem nomes tantos, nomes santos, pelas tantas, pelos tontos. mas até onde a originalidade? até que ponto o nomear autêntico, originário? em que grau o titular ao cão é digno de nota de um jornal do éden? em que nível classificaria o legítimo clamar adâmico-terreno? chamar ao cãozinho de totó já seria um limiar para um troféu lídimo a poeiras? isso é o que veremos, ou seja. mas antes, vamos tatear alguns registros a que o curvilíngua teve acesso por meio de latidos conhecidíssimos. um censo de familiares não-edênicos, antiedênicos, pró-edênicos, pois.

tchuca. tume. belinha. rex. malhado. rambo. stallone. jorginho. sexta-feira. polly. neguinho. toby. pitucha. max. pingo. bidu. lili. simba. scooby. bruce. bob. thor. nina. tina. luna. lolla. cacau. belinha. princesa. bolinha. bolão (tudo depende do tamanho da criança!). lara. jade. pandora. zeca. mel. guigues. marley. lessie. pituca. rex. lola. sansão. ox. ice. falcão. ozzy. toquinho. dara. sizzles. marry. chilli. batatinha. brisa. pizza. petúnia. beethoven. dick. tchétchi. lupe. lost. luz. megh. eike. fred. bil. baleia. alf. ursinho. jack. enfim. isto é, enfim é uma boa ideia para um cãozinho que custou a chegar. chegô! oba! aí-sim! pronto! ufa! e todos eles provocativamente mal acompanhados de sua exclamação (!). enfim, quão possibilidades!

mas por que há tamanha criatividade brasileira para cravar apelidos em nossos semelhantes e somos inclinados a penúrias quando se trata de batizar nossos menores amigos? isso é o que intriga o curvilíngua: o olfato de que a maioria (por que sempre a maior ia?) parece ter esvaziado aquele atavismo de que lhe falei acima. o hereditário, isto é. essa maioridade é avessa às astúcias linguísticas de adâm, o terroso. ou seria o avesso? pelo que sei, e por tudo que farejo, adâm foi elogiadíssimo por sua criativa-idade. pudera, dirá o lector, ele nasceu primeiro. tinha, portanto, o privilégio. o curvilíngua refuta essa ideia a mil latidos. adâm veio do barro, diz a torah. o curvilíngua, do sarro. e você, lector, donde vens que não possas exercitar-te nas cordas flambas da brincriação vocabular? tu és meu igual, tal e qual, au, au?

sem forma revolucionária não há arte revolucionária, bradou (ou latiu?) o poeta russo maiakóvski. o curvilíngua adota o mote para esta empreita, e esganiça-se em chiados e guturais para dar o mínimo e o próximo passo. eu ladro. tu ladras. ele ladra. todos ladraremos unidos num unido uivo? então, que tal inventarmos agora o nosso grito de guerra. melhor, o nosso berro de guerra. mais melhor ainda, o nosso intenso e imenso perro de fera, de feras, de lérias? essa fala astuciosa visa a iludir meu lector em teias de uivos? que nada. vou aos nomes que me vão.

basta de totós, bilus, teteias. sejamos outros. ousemos. banquemos os neologistas. chega de usos. sim, aos abusos, às audácias! inovar. há alguma coisa nova debaixo desse sol que nos arde a teias? iniciemos esta fábula canídea mamando nas escrituras, pois. para quem é judaico-cristão, irá bem ter um cãozinho com o nome de arca. ou noé. mais criativamente, ele poderia ser batizado como não/é ? depois, a corruptela o faria noah, noé. não é uma gracinha? e seria delicioso explicar a origem etimológica e estranha desse cão dado a betumes e calafetações. os filhotes? shem, hâme e iefté. mas e se tivermos um quarto filho? dilúvio, pois.

o lector tomará a ideia acima e a melhorará com uma simples lectura das páginas bíblicas. certamente terá estupendas ideias. insigths proféticos, dignos de um escriba hebreu. por exemplo, o novo integrante da família, digo, o canino, receberá o nome gospel, tão em voga. um par para ele seria o neo. sim, ele mesmo, o neopentecostal. como os nomes menores são musicalmente mais degustativos, é bom evitar as polissílabas e as proparoxítonas.

pensando aqui com os meus futons, um professor de português bem que pode ter um cachorrinho com uns nomes assim: dígrafo aposto. ou crase (feminina, claro: preciso levar a crase a veterinária! mas ir a veterinária tem crase?); que tal giz, para o professor não se esquecer de sua raiz; ou raiz, aquele cãozinho que, por assim dizer, é a raiz de todos os males da sua casa. um cão chamado hiato (aquele que silencia entre um latido e outros); verbo! sim, no começo era só o verbo, depois é que vieram os adjuntos adverbiais, uma colossal gravidez de vírgula, aquela dócil e sempre pausada cadelinha.

ei, curvilíngua, como eu não pensei nisso antes? porque você vive debaixo de regências nominais! livre-se delas e compre um cão hoje mesmo e lhe dê o nome de ironia. ou hipérbole, assim vocês extravasam. somente a língua portuguesa, nosso idiomaterno, tem umas trezentas mil palavras, e você ainda tem coragem de botar um totó ou um bilu-bilu teteia no seu paupérrimo canino? mas o curvilíngua pode lhe ajudar nessa manobra verbal.

fuja do clichê! aliás, esse é um nome que cai bem como um protesto. vem, clichê, comer sua ração modificada dia! ou bordão, se ele tiver um formato amplo. esse termo também é musical, então é um tema rico em que ousamos navegar. tema bem que pode ser um nome para seu cão, músico improvisador. ou pauta. que tal diminuto, para um pequinês? traste, para um cão impertinente, mas amigo, sobretudo. melodia seria excelente, pois faria dupla referência: à mitologia e à música. um nome plural. aliás, para aquele cão que é mais que seu amigo: olha o meu melhor amigo, é o plural !  ou, why not? singular ! se você quer ser um intelecto refinado, use sui generis. os termos latinos podem funcionar como um par de uvas (fuja do lugar-comum!). em geral, os cães vivem um tanto mais que um mosquito e um tento a menos que uma tartaruga. ainda assim, se você crê que seu cãozinho vai mais longe, chame-o eterno. ou ad infinitum. ou sempre. ou always.

se é um cãozinho daqueles apegados, que tal grude? ou cola? ou tenaz? ou sombra? ou gêmea? se o cachorrinho é hiperativo, que tal speedy, rubinho, ou cem (de cem metros rasos)? você pode até batizar com nome e sobre, mas no fim todos vão chamá-lo por uma sílaba só, isto é, cem. tive uma ideia: que tal dar o nome de para o seu cãozinho solitário?  só, você me faz tão feliz! imagine a cena: lambendo e sendo lambido por ele, no fim da tarde, a sós. o perro é calado? tácito. ou mute. late muito? nãomorde, assim mesmo, tudojunto, pois cão que ladra, enquanto ladra, não-morde (o hífen é um segunda opção de batismo).

q acha de che, para os revolucionários? ou mao. ou saddan, se tiver um focinho meio iraquiando. ou trump, se latir in english. mas você pode também chamar a seu cãozinho simplesmente de azul. por que não? quer dizer, por que não é só uma pergunta, não um nome. ou tecla, em homenagem a seu piano. ou prego, pois é leso esse cão. ou rastro, pois aí temos um astro que deixa. por que não ousar os nomes de telefonia: tim, oi, claro, vivo. que tal bisa, para aquela dócil e tenra cadelinha. e para o seu par? bis, pois ele sempre quer brincar de novo. e de novo. e de novo. e de novo. e de novo. iii, de novo? então, chame ele de replay.

engraçado, o curvilíngua nunca conheceu um cão chamado . ou brasil. ou cabral. ou uma cachorrinha chamada flor, ou lírio, ou pétala. seu cão é inteligente, q tal qi ? é burro? dê a ele o nome de. gosta de filmes? cena. ou claquete. é bravo? ruga. é clássico? lear, hamlet, homero, ilíada, odisseu, ulisses. mitológico? quimera. vive dormindo o seu cachorrinho preguiçoso? morpheu será o nome dele. ou sono. ou leta (de letárgico), ou off.   

todos concordamos que os cãezinhos, via de regras, são lindinhos, meigos, sobretudo aqueles com carinha (ou focinho?) de dó, com as caídas orelhas. nomes para eles? dolce mel, choco-late, mel-tudo, love, tetéu, bem-me-quer, sweet, sugar. mas o curvilíngua sabe, e você, meu lector, há de ser comigo, que há cães que são o diabo de feios! para eles também temos os nomes. mas estes eu os farei alguns compostos, tamanha a feiura: demunho-di-praga, dracão-di-komodo, cárie, au-hálito, sai-de-mim, vade-retro, apocalíptico, assombro, cuspo, treze, erro, qui-é-isso? prelúdio-do-fim-do-mundo, valha-me-deus, feio-como-o-cão, credo, susto, ói, trouble, coiso, trem-du-inferno, troncho, treco, estorvo, sai, praga-da-peste, voto, teu (porque meu é que não é)…

o cão é de um eletricista? fase. ou tesla. de uma arquiteta (ei, taiana!) ? pé direito. de um advogado? habeas. um pedreiro? cal. um cabeleireiro? mecha. um padeiro? tresóra. um caixa? troco. um motorista de ônibus? parada. pintor? demão. médico? estetoscópio. depois vai ficar só estetós, uma coisa meio grega. outra ideia é virose, para um cão de um clínico geral. porque tudo é virose. tudo é culpa da virose. ou do virose, esse cãozinho virulento. uma enfermeira? gaze. um escritor? conto. um engenheiro? régua. ou compasso. um padre? terço. um monge? zen. um agricultor? terra. um pecuarista? boi. essa é uma teoria que merece uma análise pormenorizada. como pode ser o boi um cão? a criança, dona desse boi, isto é, desse cãozinho, será inclinada a um bovídeo latir ou a um mugido canino? talvez um caos seria aí instaurado e a necessidade pungente de uma terapia para sanar esse dualismo infantil.

caos é o nome de um cão de um cientista a teorizar o tal. terapia é a cadelinha de quem foi salvo por uma companhia do porte. na apresentação aos amigos, será assim: essa é minha terapia e minha cadela; ou, minha cadela é a minha terapia. a um psicanalista, afeiçoado a múltiplos latidos, a tríade consagrada vai muito bem. eis os meus cãezinhos: id, ego, e… ops!, onde foi parar o superego, esse menino dá um trabalho, o cachorro, quer dizer. a um futebolista, corner pode ser uma boa sacada. ou bandeirinha, para aquele cãozinho simpático, sempre a abanar o rabinho e a alertar o impedimento. o banqueiro tem o lucro. por que não batizarmos cãezinhos com os sugestivos nomes de sorte, dólar, euro, ou pound ? se você, lector, é do tipo que acredita no poder das palavras, de tanto chamar o dólar, é possível que o sonho seja real, ou melhor, verdadeiro. vem, dólar, vem!, vem deitar no colinho do papai!

ah, meu lector, o texto se alonga, se avoluma, e não é para menos. é para muito mais. dar nomes é algo que nos seduz. o senhor sabia disso quando incitou o terroso a fazê-lo. adâm, o pele vermelha, deve ter se divertido à beça com essa lúdica incumbência…

você até poderia ter um casal de filhotes beagle e chamá-los adâm e hava (a eva). mas se você é um internauta, e se seu cão veio numa hora incômoda, que tal bug? mas você gosta de cães e de tecnologia, então compre vários e vá batizando: excel, word, power & point, windows, gates, jobs, ctrl c & ctrl v etc. yes!, etc. também é um nome supimpa. supimpa é um… et cetera.

não há limites para nomear um cão. você precisa ousar e usar aquilo a que os filósofos chamam de imaginação. quer ver meu cãozinho? este é o platão, e aquele, roendo o nosso jantar, é o aristóteles. e o sócrates, você não tinha… ah, sim, mas você sabe, né, com cachorro não se brinca, foi eu cochilar e ele bebeu minha cicuta, mas ainda bem que estava velhinho, coitado. agora estou para comprar um shar-pei. e é? como será? cortella. ou pondé. ou karnal. você sabe, é a moda… esse argumento é digno de nota. que tal o face, um cãozinho que tem muitos seguidores. e o zap, tem curtido a nova ração? twitter, vem cá, corre, menino. e como corre esse twitter! minha vizinha tem uma cadelinha que tem um latido-chave, é a hashtag.

mas e o curvilíngua, que nome dará a seu futuro cãozinho? ele pensou em akhenaton, como quem governa a casa, a grande casa, que é o significado de faraó, outra sugestiva ideia. mas seria melhor imhotep, um construtor de egípcios tijolos amontoados e empoeirados. isso a que chamam pirâmide. mas o curvilíngua gosta mesmo é de escrita, de palavras, de orações insubordinadas. que tal herege? se o herege ameaça fazer xixi onde não deve, risque um fósforo perto dele. prefácio, quantas vezes já lhe disse para não morder o vizinho? levei o epílogo ontem pra festa de aniversário do arame, aquele cachorro cujo dono tem um fusca. posso chamar o meu imaginário cão de sumário, ou de orelha, ou de capítulo, ou quem sabe colofão? mas também posso dar a ele o singelo nome de book. já pensou ter um cachorrinho chamado primeira edição? ou primeira edicão? ou simplesmente papel, tendo ele um decisivo e importante, por assim dizer, papel em minha vida. mas, por fim, escolherei um nome alemão, não para um pastor tal, mas por uma minha homenagem ao johannes (leia o j como um e o h como um r, aspirado). o gutenberg. chamarei ele de gutengui ). na história da humanidade, ninguém mais do que ele deixou uma melhor impressão. atenção, guten: luz, câmera, ração!

se o caro lector chegou ao fim destas linhas, quer dizer que desenrolou o novelo como quem partilha de uma ideia idem. portanto, deverá saber que – parodiando meu caro qohéleth – não há limites para fazer nomes. no mais, tudo é vaidade. e, como já deve supor o meu caro lector, não há nome melhor para ser chamado todos os dias: ei, vaidade, pare de abanar esse rabo!

Tão fofo...tão lindo...tão...eu já disse fofo?! // pinterest: @dianavgomes481

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saramago, una lectura babélica

(…) imponente, majestosa, a torre lá estava, na beirinha do horizonte, ainda que inacabada parecia capaz de desafiar os séculos e os milénios, mas, de repente, estava e deixou de estar. cumpria-se o que o senhor havia anunciado, que enviaria um grande vento que não deixaria pedra sobre pedra nem tijolo sobre tijolo. a distância não permitia a caim perceber a violência do furacão soprado pela boca do senhor nem o estrondo dos muros desabando uns após outros, os pilares, as arcadas, as abóbadas, os contrafortes, por isso a torre parecia desmoronar-se em silêncio, como um castelo de cartas, até que tudo acabou numa enorme nuvem de poeira que subia para o céu e não deixava ver o sol. muitos anos depois se dirá que caiu ali um meteorito, um corpo celeste, dos muitos que vagueiam pelo espaço, mas não é verdade, foi a torre de babel, que o orgulho do senhor não consentiu que terminássemos. a história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.

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caim, j. saramago. cia das letras, 2009.

o livro último de saramago antes de partir para a eternidade, ou seja lá que nome ele daria a esse acontecimento, é preguiçoso ao início. uma lectura a tédios. mas a viagem de caim, através do tempo dos tempos, seduziu o curvilíngua, enlevou-o tal e qual a serpente-astuta o fez com a mama de todas as outras: a eva-adormecida. andando e caindo pelas páginas de josé, o mago nobelístico em língua de camões, eis o curvilíngua a vaguear e ziguezaguear com um caim absorto, contumaz, ferino. aprende-se a pensar com ele, o caim, sobre os meandros da vaidade, do orgulho, da soberba, das onipotências. o curvilíngua está a duvidar se tomou caim pelas mãos ou se aquele o captou pela astúcia de seu elucubrante discurso às avessas do sistema corrente, coerente? a única certeza a que o curvilíngua se apega é quando se pega a pensar e a prensar que saramago é um caim, nem melhor nem pior, mas que ilumina um tanto da caminhada. ou escurece?

José Saramago

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