Arquivo da categoria: cenas e senhas

Los colores de las flores

O poeta Manoel de Barros, em seus exercícios de ser criança, diz que as coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças. Ele poetava que queria aprender o idioma das árvores, saber as canções do vento nas folhas da tarde, o Manoel queria apalpar os perfumes do sol.

Diego, o menino encantado a pássaros, intumescido a flores, versado a tardes de graças, arquiteto de colores a pedras, também é poeta, ecos de um manoel, de um bernardo, de uma cantiga canto-pássaro a passear pelos bosques de palabras esgarçadas de azul, de amarillo, de rojo, de morado…

Faber de signos, Diego é um garoto que está a trilhar suas veredas em semânticas de ouvir, de tocar, de cheirar, de provar, de soprar, de ver com os sentidos, e senti-los. Sua prosa, arquitextual, por fim, braile a bailar, crava-nos, e faz muito, muito sentido!

Belíssima, estupenda película! Bravo!

Três Antonios e um Jobim

Três antonios, um jobim, e o Brasil, tim-tim por tim-tim.

Eis aí um belíssimo documento a cantarolar e a ser louvado pela polifonia dessas figuras brasileiras, mas com ares de cosmopolitismo humano. Numa das falas que perpassa a película, um antonio diz: sou contra o nacionalismo cultural excessivo. E por que não deveríamos sê-lo? Este é nosso Brasil. E deles. Homens que teceram um tupi, um guarani, um romeno, um sírio, um árabe, um mineiro, um fluminense, um aborígene transculturalíssimo babélico a desbravar fronteiras; a penetrar, antropologicamente, um construir de lógicos pensares. Ao partilhar dessa conversa familiar, com sons e cheiros, com gostos e ideias, o quinto antonio, esse espelhar dialogante, interage, passando, pinçando, pensando: brasil, teu brasil estrangeiro, vou contar-te nos meus traços!

O Brasil é assim:

Houaiss
Callado
Antônio
Cândido
Jobim

 

Face das Vítimas

A palavra VÍTIMA, etimologicamente, significa(va) o ser humano ou animal morto em sacrifício a uma divindade ou na execução de algum rito sagrado. Vinda do latim victìma,ae, isto é, animal que está para ser imolado. Esse verbo, IMOLAR, é curiosíssimo: a princípio, designa o que mata em sacrifício a uma divindade. O Dicionário Etimológico de Antônio Geraldo da Cunha nos ensina: sacrificar em holocausto. Do latim immolãre, cobrir a vítima de farinha e sal, de mola -ae, farinha com que se polvilhavam as vítimas antes do sacrifício, donde as palavras moinho, moer, moído et cetera. Hoje a palavra imolar é raramente pronunciada entre nós. Já a palavra vítima tornou-se una persona non grata entre nosotros, espécie de vitimização etimológica numa viagem vocabular a estampar diariamente noticiários em cliques pelo planeta.

No entanto, a vítima do século 21 está posta num altar holocáustico virtual globalizado. Basta um clique e todo o planeta socializado digitalmente estará a fazer o papel de um sacerdote-macro a imolar, em imagens instantâneas, o sacrifício sacro a um deus tech. O sacrificante e o sacrificado confundem-se em meio a bits e bytes. As linhas de convergência são tênues, assim como sutis são as conexões inter e extra. A julgar pela extensão ano-luz da maior social network do planeta, em suas faces bilionárias, o jogo de cliques e chiliques nesse rito global está a arder em clamas. Clamare, também do latim, é fazer ruídos, grandes estrondos, bradar, gritar. E quem assim o faz, senão para aparecer, para quê então? Clico, logo existo! Clico, não resisto! Compartilho, EU EXISTO! Clico, também, logo rito, ritual animalesco a exibir-se em toda a sua plenitude, ou o que se possa nomear para tal. Essa fome pela ubiquidade está linkada com a ideia da divindade supracitada. O ser ubíquo – tecno-clicante, touch-tocante – está a polvilhar sua farinha digital em si e no outro, sametime. A esfuziantes milhas de distância ele, o ubíquo omni, pressente e presente para o globo, oferece seu ser virtualesco a uma comunidade tribalizada e polvilhada a inflamar sua ossatura pop. Seu odor, a suar e a soar do altar, ruma aos ares nunca dantes pulverizados. Não há como deletá-lo, nem mesmo é possível ignorar suas odoríferas lavras de chamas, de clamas, flambas. Contraponto e contrapondo-se há, no mercado, máscaras à disposição dos castos incautos, mas, ao que se sabe, elas mais inflamam que afagam. Distantes, porém,  de originalidades, já que são dadas a disfarces e dissimulações. Que fazer, então? A princípio, nada. Phoenix formatada, upgrade chamuscada, print screen backuptada, a chama apagar-se-á, e um novo rito nascerá.

 

Como a gente negoceia

Minhas Gerais! Da leitura de um conto – Como a gente negoceia – de Olavo Romano, nasce uma belíssima película com sons, cores, palavras e o elegante humor mineiro. O elenco é estupendo, e a estória é muito familiar. Curta, degustando um café do sul de Minas e umas rosquinhas caseiras, à moda de velhos e argutos negociantes mineiros e brasileiros!