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saramago, una lectura babélica

(…) imponente, majestosa, a torre lá estava, na beirinha do horizonte, ainda que inacabada parecia capaz de desafiar os séculos e os milénios, mas, de repente, estava e deixou de estar. cumpria-se o que o senhor havia anunciado, que enviaria um grande vento que não deixaria pedra sobre pedra nem tijolo sobre tijolo. a distância não permitia a caim perceber a violência do furacão soprado pela boca do senhor nem o estrondo dos muros desabando uns após outros, os pilares, as arcadas, as abóbadas, os contrafortes, por isso a torre parecia desmoronar-se em silêncio, como um castelo de cartas, até que tudo acabou numa enorme nuvem de poeira que subia para o céu e não deixava ver o sol. muitos anos depois se dirá que caiu ali um meteorito, um corpo celeste, dos muitos que vagueiam pelo espaço, mas não é verdade, foi a torre de babel, que o orgulho do senhor não consentiu que terminássemos. a história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.

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caim, j. saramago. cia das letras, 2009.

o livro último de saramago antes de partir para a eternidade, ou seja lá que nome ele daria a esse acontecimento, é preguiçoso ao início. uma lectura a tédios. mas a viagem de caim, através do tempo dos tempos, seduziu o curvilíngua, enlevou-o tal e qual a serpente-astuta o fez com a mama de todas as outras: a eva-adormecida. andando e caindo pelas páginas de josé, o mago nobelístico em língua de camões, eis o curvilíngua a vaguear e ziguezaguear com um caim absorto, contumaz, ferino. aprende-se a pensar com ele, o caim, sobre os meandros da vaidade, do orgulho, da soberba, das onipotências. o curvilíngua está a duvidar se tomou caim pelas mãos ou se aquele o captou pela astúcia de seu elucubrante discurso às avessas do sistema corrente, coerente? a única certeza a que o curvilíngua se apega é quando se pega a pensar e a prensar que saramago é um caim, nem melhor nem pior, mas que ilumina um tanto da caminhada. ou escurece?

José Saramago

* fonte da imagem: pinterest

das utilidades do livro

dizem as pesquisas, nacionais e inter, que o brasileiro não é dado a livros. para quê livros em tempo de crise?, parafraseando um verso alemão… mire e veja, o livro terá outras utilidades a quem tem livrofobia. vamos a elas, às serventias dele, o liber:

1 – peso-encosto a evitar portas a bater (sugiro o aurélio, ou o houaiss).

2 – una pilha de libros enciclopédicos a modo de perna de mesa, ou cadeira, ou  cama…

3 – outra pilha, não menos ciclópica, terá serventia de assento: um pufe literato, que tal?

4 – dois books, finos de preferência, par ideal a livrar-se de pernilongos e seres idem…

5 – ameaçar o guri com uma livrada poderá fazê-lo voltar à realidade não virtual.

6 – um esconderijo de senhas, afinal, quem se atreveria?

7 – brincar de torre de papel até chegar no seu… limite.

8 – um friozinho, uma bebida quente numa noite romântica, e a livreira, quer dizer, a lareira

9 – leio, logo cochilo… então, bora lá fazer um travesseiro à la descartes.

10 – um disfarce intelectual, como quem está a practicar uma weltanschauung

11 – ler dá sono? adeus às farmas, corramos às livrarias…

12 – dê livros de presente! não há provocação maior…

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leio, logo cochilo

ácido, o limão metaboliza-se no organismo húmus, de modo a alcalino. análogo, o processo de construir um leitor brasileiro, insipiente e incipiente, faz eco. ora vejo: as letras desacostumadas a palavras, engrunhidas a frases, em fases de orações valha-me-deus, postuladas em parágrafos palpitantes a cobras, resultam em textos calidoscópicos nos quais a ausência de sentidos é arranjada simetricamente em colores múltiplas: imagens, imagens, e mais. nessa conta infinda, de ícones a encantos, o aluno pinça seus cliques-cascatas em ventanas de gates. mas só pinça, nunca pensa, penso. a imago faz da lectura, como disse um filósofo – l.packter – um subproduto miserável da visão. ler é preciso? yes and not. navegar sim é preciso. é pré-siso. mais: é pré-cisco n’olho das gentes. que fazer, então, se li mal o texto líquido e vitamínico alfa-beta-gama? deixo-o escorrer pelas estranhas de um gástrico insólito a metabolizar-se? alcalino-me pelas entranhas dessa gladiadora compreensão intertextualíssima? deveria eu cerrar as páginas dum volumoso e indolente book papeludo e voltar ao virtual ícone não menos acidificante flecheiro? mas ler é bocejante!, disse-me um meu sobrinho virtualíssimo a games. nesse diálogo aliem, perdeu-se o tio na meada, e o book se face. espero, entretantos, com a paciência de um intervalo de um clique googleniano, um leitor ícone futuríssimo a mamar em deleites por arqueo-lógicas palavras fruturas: em se plantando, sulco dá. pero hoy, no mucho. mas isso lerá a seu vento, que seja. nesse esperançar – m.s.cortella – lerei, num faturo próximo, e próspero, um colher limoeiro. li muy lejos? o vento dirá, ou melhor, lerá. leremos, todos os nós, e os desfaremos como que penélopes a tecer e a destecer ideias em papel touch, quer seja. somos sapiens, right? neologizemos, pois, o futuro.

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