Arquivo da categoria: deus me livros

o antropófago livresco

é um canibal em extinção

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* antropofagia, ipsis litteris (ao pé da letra), quer dizer aquele que come carne humana. e não é o que fazem os leitores quando devoram os livros que leem?

Nao! Meu bem de todas as fotos a que mas se aproxima é essa. Eu vivo assim contigo.

* para maiores desentendimentos, ver manifesto antropofágico, de oswald de andrade:

http://www.ufrgs.br/cdrom/oandrade/oandrade.pdf

 

 

vertiginosa galáxia

e se você quer o fácil eu requeiro o difícil e se o fácil te é grácil o difícil é arisco e se você quer o visto eu prefiro o imprevisto e onde o fácil é teu álibi o difícil é meu risco

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* haroldo de campos, poeta (1929-2003).

** o fragmento acima é proeza das galáxias de haroldo, lido e relido pelo curvilíngua há décadas.

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ora, direis, ouvir galáxias:

 

o madrugar de rui

Estudante sou. Nada mais. Mau sabedor, fraco jurista, mesquinho advogado, pouco mais sei do que saber estudar, saber como se estuda, e saber que tenho estudado. Nem isso mesmo sei se saberei bem. Mas, do que tenho logrado saber, o melhor devo às manhãs e madrugadas. Muitas lendas se têm inventado, por aí, sobre excessos da minha vida laboriosa. Deram, nos meus progressos intelectuais, larga parte ao uso em abuso do café e ao estímulo habitual dos pés mergulhados n’água fria. Contos de imaginadores. Refratário sou ao café. Nunca recorri a ele como a estimulante cerebral. Nem uma só vez na minha vida busquei num pedilúvio o espantalho do sono.

Ao que devo, sim, o mais dos frutos do meu trabalho, a relativa exabundância da sua fertilidade, a parte produtiva e durável da sua safra, é às minhas madrugadas. Menino ainda, assim que entrei ao colégio alvidrei eu mesmo a conveniência desse costume, e daí avante o observei, sem cessar, toda a vida. Eduquei nele o meu cérebro, a ponto de espertar exatamente à hora, que comigo mesmo assentara, ao dormir. Sucedia, muito amiúde, encetar eu a minha solitária banca de estudo à uma ou às duas da antemanhã. Muitas vezes me mandava meu pai volver ao leito; e eu fazia apenas que lhe obedecia, tornando, logo após, àquelas amadas lucubrações, as de que me lembro com saudade mais deleitosa e entranhável.

Tenho, ainda hoje, convicção de que nessa observância persistente está o segredo feliz, não só das minhas primeiras vitórias no trabalho, mas de quantas vantagens alcancei jamais levar aos meus concorrentes, em todo o andar dos anos, até à velhice. Muito há que já não subtraio tanto às horas da cama, para acrescentar às do estudo. Mas o sistema ainda perdura, bem que largamente cerceado nas antigas imoderações. Até agora, nunca o sol deu comigo deitado e, ainda hoje, um dos meus raros e modestos desvanecimentos é o de ser grande madrugador, madrugador impenitente.

Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas idéias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas.

Já se vê quanto vai do saber aparente ao saber real. O saber de aparência crê e ostenta saber tudo. O saber de realidade, quanto mais real, mais desconfia, assim do que vai aprendendo, como do que elabora…

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* o curvilíngua leu oração aos moços, do rui barbosa, semana passada, e gostou muitíssimo! o texto é cativante. o que mais intriga nele, porém, é sua atualidade em termos humanos, brasileiros. ou brasileiros, apenas.

** oração aos moços, discurso de paraninfo dos doutorandos da faculdade de direito de são paulo, em 1920. lido pelo prof. dr. reinaldo porchat, porque RUI, tendo adoecido, não pôde comparecer àquela solenidade (nota que consta do exemplar que tenho, de 1957).

 

saramago, una lectura babélica

(…) imponente, majestosa, a torre lá estava, na beirinha do horizonte, ainda que inacabada parecia capaz de desafiar os séculos e os milénios, mas, de repente, estava e deixou de estar. cumpria-se o que o senhor havia anunciado, que enviaria um grande vento que não deixaria pedra sobre pedra nem tijolo sobre tijolo. a distância não permitia a caim perceber a violência do furacão soprado pela boca do senhor nem o estrondo dos muros desabando uns após outros, os pilares, as arcadas, as abóbadas, os contrafortes, por isso a torre parecia desmoronar-se em silêncio, como um castelo de cartas, até que tudo acabou numa enorme nuvem de poeira que subia para o céu e não deixava ver o sol. muitos anos depois se dirá que caiu ali um meteorito, um corpo celeste, dos muitos que vagueiam pelo espaço, mas não é verdade, foi a torre de babel, que o orgulho do senhor não consentiu que terminássemos. a história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.

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caim, j. saramago. cia das letras, 2009.

o livro último de saramago antes de partir para a eternidade, ou seja lá que nome ele daria a esse acontecimento, é preguiçoso ao início. uma lectura a tédios. mas a viagem de caim, através do tempo dos tempos, seduziu o curvilíngua, enlevou-o tal e qual a serpente-astuta o fez com a mama de todas as outras: a eva-adormecida. andando e caindo pelas páginas de josé, o mago nobelístico em língua de camões, eis o curvilíngua a vaguear e ziguezaguear com um caim absorto, contumaz, ferino. aprende-se a pensar com ele, o caim, sobre os meandros da vaidade, do orgulho, da soberba, das onipotências. o curvilíngua está a duvidar se tomou caim pelas mãos ou se aquele o captou pela astúcia de seu elucubrante discurso às avessas do sistema corrente, coerente? a única certeza a que o curvilíngua se apega é quando se pega a pensar e a prensar que saramago é um caim, nem melhor nem pior, mas que ilumina um tanto da caminhada. ou escurece?

José Saramago

* fonte da imagem: pinterest

das utilidades do livro

dizem as pesquisas, nacionais e inter, que o brasileiro não é dado a livros. para quê livros em tempo de crise?, parafraseando um verso alemão… mire e veja, o livro terá outras utilidades a quem tem livrofobia. vamos a elas, às serventias dele, o liber:

1 – peso-encosto a evitar portas a bater (sugiro o aurélio, ou o houaiss).

2 – una pilha de libros enciclopédicos a modo de perna de mesa, ou cadeira, ou  cama…

3 – outra pilha, não menos ciclópica, terá serventia de assento: um pufe literato, que tal?

4 – dois books, finos de preferência, par ideal a livrar-se de pernilongos e seres idem…

5 – ameaçar o guri com uma livrada poderá fazê-lo voltar à realidade não virtual.

6 – um esconderijo de senhas, afinal, quem se atreveria?

7 – brincar de torre de papel até chegar no seu… limite.

8 – um friozinho, uma bebida quente numa noite romântica, e a livreira, quer dizer, a lareira

9 – leio, logo cochilo… então, bora lá fazer um travesseiro à la descartes.

10 – um disfarce intelectual, como quem está a practicar uma weltanschauung

11 – ler dá sono? adeus às farmas, corramos às livrarias…

12 – dê livros de presente! não há provocação maior…

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leio, logo cochilo

ácido, o limão metaboliza-se no organismo húmus, de modo a alcalino. análogo, o processo de construir um leitor brasileiro, insipiente e incipiente, faz eco. ora vejo: as letras desacostumadas a palavras, engrunhidas a frases, em fases de orações valha-me-deus, postuladas em parágrafos palpitantes a cobras, resultam em textos calidoscópicos nos quais a ausência de sentidos é arranjada simetricamente em colores múltiplas: imagens, imagens, e mais. nessa conta infinda, de ícones a encantos, o aluno pinça seus cliques-cascatas em ventanas de gates. mas só pinça, nunca pensa, penso. a imago faz da lectura, como disse um filósofo – l.packter – um subproduto miserável da visão. ler é preciso? yes and not. navegar sim é preciso. é pré-siso. mais: é pré-cisco n’olho das gentes. que fazer, então, se li mal o texto líquido e vitamínico alfa-beta-gama? deixo-o escorrer pelas estranhas de um gástrico insólito a metabolizar-se? alcalino-me pelas entranhas dessa gladiadora compreensão intertextualíssima? deveria eu cerrar as páginas dum volumoso e indolente book papeludo e voltar ao virtual ícone não menos acidificante flecheiro? mas ler é bocejante!, disse-me um meu sobrinho virtualíssimo a games. nesse diálogo aliem, perdeu-se o tio na meada, e o book se face. espero, entretantos, com a paciência de um intervalo de um clique googleniano, um leitor ícone futuríssimo a mamar em deleites por arqueo-lógicas palavras fruturas: em se plantando, sulco dá. pero hoy, no mucho. mas isso lerá a seu vento, que seja. nesse esperançar – m.s.cortella – lerei, num faturo próximo, e próspero, um colher limoeiro. li muy lejos? o vento dirá, ou melhor, lerá. leremos, todos os nós, e os desfaremos como que penélopes a tecer e a destecer ideias em papel touch, quer seja. somos sapiens, right? neologizemos, pois, o futuro.

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Está a faltar um pedaço de mim…

7 motivos reais para não emprestar meus filhos, quer dizer, meus livros

Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu
Chico Buarque, in Trocando em miúdos.

Quem empresta, adeus… Segundo as pesquisas bibliográficas, e o Barão de Itararé, 99,9% dos livros que você empresta tendem a sumir misteriosamente, uma espécie de abdução hieroglífica (dez)proposital.

Roda, roda, roda… Dizem, os atrevidos, que é sustentável fazer com que os livros circulem por aí, livres a voar. Deus me livros!

Metamor/fases: É como um soldado que foi para a guerra: ele voltará repleto de marcas, muitas indeléveis, cujas ranhuras (de ranho?) serão um incômodo, nunca incólume, incalculável. Vous me comprenez?

Profilaxia livreira: Como sonhar com pergaminhos se não sabemos como estão nuestros hijos, quero dizer, nuestros libros? Essa ansiedade bibliófila é causa de tensa, densa e intensa palpitação e suores noturnos. Em extremos, corre-se o risco de encarte, ops!, de enfarte.

Meu Livro Amigo: Há quem não perca uma piada, mesmo que lhe custe um amigo. Eu não perco um livro, mesmo que me custe a piada.

Viva Gutemberg!: Se a cada pedido de empréstimo eu conceder, vejo-me como um antiprogressista. Ergamos a bandeira de Gutemberg: vamos imprimir! Quanto mais compram, mais cresce o país; quanto mais nego – o empréstimo, mais Cecília, mais Drummond, mais Machado de Assis…

Uma lacuna antiestética: É olhar de relance uma estante e ver que está a faltar um pedaço de mim…

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Deus me livros!

Às vezes acontece de uma empresa sortear um vale-livro num evento informativo, educativo, recreativo et cetera. Mas tem efeito? Sim, há os que vendem seu passaporte-livresco a fim de evitar lesões. Tem quem sorria ao ganhar o vale-tal. Yellow, course. Comemorar, de fato, só os estranhos seres aculturados nessas insólitas horas a só acompanhados desse objeto excêntrico, o livro.

O livro,
objeto-livro,
objeto-rico;
por vezes,
objeto-mico.

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