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um sopro poético numa recriação bíblica

mencionei no texto tóhu vavóhu (ver publicação) que as traduções várias dos textos bíblicos desentendem o caráter poético e semanticamente explosivo de uma parcela imensa de textos hebraicos e gregos. no entanto, há momentos em que o sublime perpassa o viés tradutório e alcança níveis dignos de um ruflar de uivas e vivas.

a tradução comum para o verso ix do capítulo v da carta aos gálatas do rabino shaul, o apóstolo paulo de tarso, é a seguinte: um pouco de fermento leveda toda a massa. no original grego é mais ou menos assim: mikra zymi olon to fyrama zymoi. com pequenas variantes, é possível ler em outras versões: um pouco de fermento leveda a massa inteira (nvi) ou ainda: un poco de levadura leuda toda la masa (reina valera). un peu de levain fait lever toute la pâte (louis segond). na tradução do judeu messiânico david stern está assim: é preciso só um pouco de hametz para levedar toda a massa. a vulgata latina reproduz modicum fermetum totam massam corrumpit, o que ainda é uma trivialidade antimusical, pois a vulgata tem relances bem melhores. lutero, por sua empreita, traduz para o alemão de sua época: ein wenig sauerteig durchsäuert den ganzen teig, o que seria, aproximadamente, um pouco do fermento levedado (amargou) a massa inteira. tal e qual as demais citadas. aliás, todas elas exalando um odor banal, corriqueiro, ordinário. não há o sopro poético, nem o vigor, nem a beleza estética. não há a explosão calórica a que se referia um meu professor de semióticas, isto é: o pulsar poético a bailar imponente em prosódias assonantes, ressonantes, aliterativas. antes, as traduções simplistas são uma espécie de murcha-flor, ou seja.

conheci também uma interessante tradução, disponível para download na web, do senhor benjamin wilson. ele publicou o texto grego do novo testamento e uma sobreposição literal interlinear em inglês, em 1864. é a famosa operação tradutória palavra por palavra, uma tradução seca.  literalmente ao texto grego, ele dá: a little leaven ferments the mass it leavens (um pouco de fermento toda a massa que ele leve). na tradução formal, equivalente ao grego: a little leaven ferments the whole mass (um pequeno fermento fermenta toda a massa).

mas a que me encanta pela sua fluidez sonora e prosodicamente poética é a recriação de giovanni diodati (1576-1649) para o italiano. o tradutor da célebre la sacra bibbia ossia l’antico e Il nuovo testamento era teólogo de confissão protestante genebrina. em sua arte na tradução do verso em análise, ele cria uma partitura musical na belíssima linguagem italiana que sublima e eclipsa todas as demais línguas supracitadas. eis a prova:

un poco di lievito lievita tutta la pasta

ainda que seu sentido literal seja o mesmo dos demais tradutores citados, diodati valeu-se do léxico da península da bota para musicalizar o verso-partitura em arte-textura. a leitura é imensamente prazerosa, e nos dá a ideia de que há um andamento melódico perpassando cada palavra/nota numa cadência vibrante e irresistível! basta citar, para efeito comparativo, outra versão ao italiano: un po’ di lievito fa fermentare tutta la pasta. ou seja, a pedra de toque de diodati faz a diferença. eis a explosão de que falava o antigo mestre.

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rosa, rosae

pão ou pães
é questão de opiniães
o ser tao está em toda a parte

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* o curvilíngua faz uma intervenção crível nas veredas de joão guimarães, à maneira de. para ler, ver taoísmo, e um tal tsé

 

livrando tomé

assim os onze adeptos vão a galil,
na montanha que iéshoua’ lhes havia indicado.

eles vêem e se prosternam;
mas alguns duvidam.

matyah 28,16/17

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* em nota a essa passagem, andré chouraqui, belíssimo re-criador dos textos bíblicos para o francês, diz: a dúvida não toma conta apenas dos romanos nem de seus colaboradores hebreus. ela reina também entre os mais próximos discípulos de iéshoua’, mesmo quando se encontram em sua presença e contemplam seu adôn fora de seu túmulo.

simulacro cantante

VW Fusca 1962

isto não é um carro.

 

* a construção sintática acima dialoga, intertextualmente, de modo a peraltagens, com o clássico signo do artista surrealista belga e seu antiesfumaçante discurso imagético-simbólico a desconstruir o nonsense. 

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“isto não é um cachimbo”, rené magritte, 1929.

 

Lindinhoo

* o curvilíngua sabe muito zen que o beatle, o käfer, o vochito, o fusca não é um carro, mas um ícone global, listado entre os maiores. suas curvas célebres somente são equiparadas às do famoso e indigesto intoxicante açucarado, o refri-errante…

o fusca é um estilo de vida. dizem, seus cúmplices, que ele não anda, desfila; ele não estaciona, fica em exposição; ele não para, faz manha. com uma história assim inigualável e fascinante, faiscante, ele, o käfer, ofusca os demais.

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Resultado de imagem para livro fusca

quando o curvilíngua olha para um fusca, o que ele vê é la trahison des images.

* fonte das imagens: pinterest

 

 

¿el arcoíris tiene siete colores?

se pra você o arco-íris ainda tem sete cores
é melhor você trocar de olhares
ou então mudar de amores

de variados tipos, de variadas belezas. portas com os rostos de varias arquiteturas. ~^:

* fonte da imagem: pinterest

** o poema foi tecido a partir da leitura seguinte: (…) recuerde, el concepto de color no es solo físico, sino también  psicológico y fisiológico, por lo que, según la oscuridad y la saturación de un color y las mezclas entre ellos, percibimos una extensa variedad. los monocromáticos, mezclados entre ellos y con diferentes cantidades de blanco o de negro, dan para cada tono infinitas sensaciones de nuevos colores (el país).

melhor morrer de vodca que de tédio

um brado maiakóvski poeta expresso moderno século vinte rude russo terno. mas eu não bebo vodca, camarada vladímir, vou morrer de quê? de chorar? de rir? de que morrerei, se abomino o tédio? não bebo coca-cola nem guaraná eu vejo. vou viver pra crer, se me arruína o médio? viver assim, luzidio gorduroso nédio, lis sem limite especial cartões de crédito? à saída, sim, beberei cicuta, tal filósofo, à moda grega, filósofo filho-da-puta. assim se cura, assim se apura, amigo impetuoso, o entardecer, esse apurar lenhoso. ainda me escutas? que nada, sorverei veneno, vermelho vinho, não sereno: mescla ruim de groselha-leite-sachê-e-um-saquê-de-eno. não e não há sim. tomarei poemas, à noite embriagar-me-ei de estrofes solilóquios rimas cordas esgrimas temas. certezas, mesmo, eu as tenho, comerei  o tédio esse é meu remédio esse é meu sufoco antigo grito rouco outrora refrigério. mas amanhã, antologia imensa, eu lamberei poemas, engolirei emblemas, signos cínicos de todos os problemas. assim, por um fim, ensaio de cena

burnt:

* dramatização sob tutela do mote titular extraído do poema a sierguéi iessiênin, de vladímir maiakóvski, 1893-1930, em tradução do russo ao português por haroldo de campos.

** fonte da imagem: pinterest

ave, trocadilho!

o trocadilho, um ser paronomástico

O trocadilho, a mais baixa forma de humor, também tem seus momentos de grandeza. Ziraldo, a propósito da entrada da Coca-Cola na China, refez brilhantemente o slogan do famoso intoxicante: “Isto faz um Mao!” [Millôr Fernandes, A Bíblia do Caos].

(…) Como trocadilho, a paronomásia ostenta menos interesse literário, pois constitui humor fácil e medíocre [Massaud Moisés, Dicionário de Termos Literários].

Uma alfinetada em certo projeto incerto brasileiro: Minha Casa, Minha Dívida.

algumas definições de trocadilho e paronomásia

trocadilho: diminutivo de trocado. Arranjo de palavras semelhantes no som e cuja sequência propicia equívocos de sentidos dúbios, principalmente visando a fazer humor ou graça (CHERUBIM, 1989).

paronomásia: (…) designa uma figura de linguagem que consiste no emprego de vocábulos semelhantes na forma ou na prosódia, mas opostos ou aparentados no sentido (…) Quando empregada com objetivos cômicos ou a fim de ridicularizar, a paronomásia torna-se trocadilho (MOISÉS, 2004).

Desde que o trocadilho me interessou como instrumento agudo escritural/escriturístico tenho meditado em sua tessitura, em suas possibilidades fônicas, cônicas, icônicas e, sobretudo, cômicas. Falo da comicidade que dialoga intertextualmente com o objeto preterido.

Ler, a modo de lupa, um trocadilho que valha, desses que vêm a calhar, pensado a entalhes, extinto de falhas, pensado e prensado, é um deleite. Melhor, é um estilhaço sonoro a musicar-me. Mais: é um estilhastro  a constelar-me em sua gráfica-textura visível, fusível , fundível.

Um trocadilho estronda quando provoca o pensar em labiríntico-ludo-palavrear. Desde que a palavra big-bangueou, seja numa cosmogonia judaica ou hinduísta, a palavra sempre foi o pronto de partes idas e vindas. Quem não se comunica, não clica, não fala, não grita. Até a palavra tácita agita. Proparoxitonalmente infinda. E linda.

Trocadilhar é provar que vive, que eu vi, que ele vê, que ambos vivemos. Vilermos.  Mas, também, vi lerdos. Sim, são os anti. Castos de visão. Casta divisão. Cegos maus condutores de outros idem, como poetou Yeshoua’. Quem não tem colírios, usa óculos obscuros. Com esses, eu não me lendo. Dou o troco, oco, eco de mim e do outro. E é notável reparar que, ao valer-se de um trocadilho, certos (ou errados?) usurários da língua peçam desculpas ao leitor: Com o perdão do trocadilho… Estão perdoados?

pedras de toque

Apesar do que disse o Millôr acima, ele mesmo um trocadilhista em pleno sentido denotável da palavra. Um exemplo: Brasil, país do faturo. Criticamente o humorista evoca, em seu jogo-ludo, o célebre autor Stefan Zweig, judeu-austríaco, e seu livro clássico, Brasil, um país do futuro, publicado em 1941. Eis um trocadilho primorasamente sintático e analítico.

Anônimos também tecem maravilhas. Uma placa alerta: Cuide bem do seu corpo no inverno, porque em breve verão! Que tal brechó? Ou Shopping? Mas e… brechópin, que massa! O surrado Test Drive ganhou notoriedade com a Volkswagen num esbelto Best Drive!

O poeta da Vila, Noel Rosa, foi um mestre ao lidar com as palavras: Dentro do teu coração / Não me diga que não / Só existe falsidade / É a pura verdade / Arranjei um trocadilho / Pra cantar com estribilho / Teu retiro dá saudade. Há um samba dele com o sugestivo título Tipo Zero. Ou, o antológico verso inicial de Feitio de Oração: Quem acha, vive se perdendo

Numa reportagem de uma revista brasileira, que estava a falar de OSTRAS, eu li sobre nomes de restaurantes especializados em moluscos: Ostradamus, Umas e Ostras, e Maria-vai-com-as-ostras. Li, também, sobre a criatividade carioca para titular seus comércios com pitorescas invenções vocabulares. Seguem trechos da matéria:

(…) há a clínica veterinária Cãopacabana, o botequim BomBARdeio, a loja de bolsas Mala Amada, a “croassanteria” Croasonho e a creperia Crepe Diem. Na Tijuca, há a lanchonete Faceburger. Uma lavanderia em Botafogo se chama Lava Isso & A Quilo. O ramo dos bares: em Vidigal, há o Barlacubacu. No Anil, o Barbudo. No Flamengo, o Zanzibar. Em Del Castilho, o Zombar. Em Madureira, o Bar Bosa. No Catete, o Bartman. O ramo de toldos: em Anchieta, há a Tempra Toldos. No Grajaú, a Toldos Dias. E em Todos os Santos, quem adivinha?  Em Nova Friburgo, vi uma loja de plotagem chamada Harry Plotter. Deu vontade de abrir uma concorrente, a Senhor dos Painéis! O recurso do trocadilho foi parar no comércio, mas sempre esteve na literatura. Basta lembrarmos do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, que tinha o trocadilho dos trocadilhos, Tupi or not tupi.

liter/atos

Dois livros do linguista brasileiro Marcos Bagno destacam: Norma Oculta (da língua portuguesa) e Dramática da Língua Portuguesa. O Manoel de Barros deu o nome a um de seus livros stupendus de Retrato do Artista Quando Coisa. Uma boa sugestão para quem vai tecer um artigo sobre o poeta norte-americano Ezra Pound: Ezra uma vez. Mariavilha é o nome de uma personagem de livro do escritor moçambicano Mia Couto. Os poetas haroldo de campos e guilherme mansur teceram, juntos, um livro de poemas sobre felinos: Gatimanhas e Felinuras, isso sim é um exímio trocadilho! Há uma sacada genial do poeta Glauco Mattoso (seu próprio pseudônimo já é uma beleza!): Em terra de olho, quem tem um cego…errei! Há um livro chamado Idade Mídia, a comunicação inventada na escola, de Alexandre Le Voci Sayad.  Sonho de uma noite de varrão, partitura de Haroldo de Campos, em Galáxias. Kamiquase, do Paulo Leminski. O poema Ménage à trois, de José Paulo Paes: em casa de ferreira, o espeto é de paulo. E o Rosa: pão ou pães, é questão de opiniães. Aparício Torelly, o Barão de Itararé, ao redesenhar um modelo de jornal com base no aclamado A Manhã, deu-lhe o engraçadíssimo epíteto A manha.  O Leminski, em sua biografia sobre Jesus, diz que o rabino galileu é um super poeta. Vivia a crivar sua linguagem de trocadilhos. Já a poesia hebraica é repleta de imagens vocabulares trocadilhescas. Para quem estuda a gematria, é extasiante mirar e ad/mirar a profundidade paronomástica dos hebreus. Poetas maiores e melhores, sim senhor.

meu tear

O trocadilho é evocado em títulos de livros, reportagens, teses de mestrado e doutorado, artigos acadêmicos, propagandas e publicidades, em jornais, revistas, internet, em outdoors, em panfletos, nos recados de geladeira, na arte rupestre milenar, nos muros de Pompeia, na grafitagem contemporânea, na política, na economia (leia textos de Joelmir Beting),  nas conversas polifônicas entre tenras terras brasilianas, e até mesmo no curvilíngua, blog esboçado deste scriba analógico-dactilo-virtual que vos tecla.

Meu labor escriturístico é captar uma imagem vocabular plena de significantes e repleta de significados. Após, pensar e prensar, semper, sempre. Manipular ao fundo e ao findo o título, ponto mestre do poema, ser dialógico e dialogante com o corpus textual. Declarar o fato é minha arte/manha. Mas o exercer olfático pertence a você, leitor, o outro autor, scriba/scribae. Perceptor farejante, narinas alertas, o leitor constrói o texto. Melhor, destrói o tecer, a modo de entender o substrato, nem sempre perceptível e crível numa só lectura. Leiamos duas notas musicais sobre:

(…) Mas um texto também constrói o seu futuro leitor (…) À medida que o texto vai cindindo seu sujeito, abolindo seu autor, ele se encontra e se perfaz no outro. No outro em devir… Haroldo fala, em entrevista, de suas Galáxias e pede simplesmente um leitor de olhos novos e de escuta aberta. Um coração cosmonauta. Nada de orelhas varicosasMetalinguagem e Outras Metas, Perspectiva. O escritor Enrique Vila-Matas teceu um pequeno mas consistente artigo sobre a renovação dessa intrincada parceria entre autor/leitor. Diz Vila-Matas que  Las mismas habilidades que se necesitan para escribir se necesitan para leer. Os escritores verdadeiros estão à busca de leitores idem, que labutem e dialoguem com cada sílaba orgânica e entremeada de significantes. Um leitor talentoso, portanto. Ainda Vila-Matas: Respiran de nuevo los escritores que se desviven por un lector activo, por un lector lo suficientemente abierto como para permitir en su mente el dibujo de una conciencia radicalmente diferente a la suya propiaEl talento del lector.

Meu projectus para o curvilíngua é tecer em modulações permutáveis. A ideia é jogar. Como disse o Rosa, jogar nos ares montões de palavras, moedal.  E, por penúltimo, a imagem intertextualística, semiótica, semitexturante, tinteira a esmo. As palavras desenham a imagem. Esta, só, não vale mil palavras. Findo o texto, o autor joga as palavras. E outro texto roga.

Resultado de imagem para teia de aranha

 

 

 

 

lodos de amor

o sapo
de olho na sapa
louco por um brejo de amor

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* nota lodal: o feminino de sapo não é rã, e sim sapa. vide aurélio et zoólogos afins. aliás, sapo, rã e perereca são distintos, pois. então o masculino de rã é rão? ou ranho? não!, não! são casos a epicenodiz-se de ou substantivo (designativo de animais) com apenas um gênero. assim, de modo a macho e fêmea: perereca fêmea, perereca macho; onça fêmea, onça macho; jacaré fêmea, jacaré cabra macho. capisque? admito a esmo que foi um perereco dar essa explicação…