Arquivo da categoria: quebra-cabrestos

do chilique ao último clique, uma sintética história da linguagem humana

no princípio era o verbo, solo, terreno adâmico a fertilizar
depois é que vieram as orações subordinadas, os gramáticos,
pānini, trácio, fernão de oliveira, e o evanildo bechara.
e os estudantes viram que não era nada bom.

então cada tribo em seu estribo desinventou sua própria língua,
de modo que todos pudessem se desentender perfectamente.

e assim foi parido o google, inserindo a sensação sensacional de que estamos a sumir num cisco um risco cascata à la windows entre um link e noutros.

como é escassa a vida, e o vento não espera,
eis q as terminologias, as elucubrações, os devaneios,
e o raciocinar fundamentado foram lançados na lixeira do hd ex terno

e os (mau)falantes passaram a emitir semitons incompletos
msgs cifradas numa hashtag intermitente,
espécime de ré-produção uno fono mono mofo semântica,
e viram q ainda assim erram subentendidos.
ou não:

aí, sim!
boa!
é bem isso!
top!
dez!
legal!
faz sentido (!)
num-sei-o-quê

e o escritor ou (viu) que não era nada som

Algumas pessoas tem atitudes que dificultam a vida, tem palavras demais na boca. Por isso prefiro esse jeito meio na minha de levar a vida. Nem sempre estou disposta a brigar e as vezes me faço de boba, mas observo mais do que falo. Gosto de dar corda pra ver até onde os espertos vão, mas não puxo, deixo que se enrosquem na própria esperteza. Quem fala demais tropeça nas palavras e se forem palavras mentirosas então, aí a queda é feia mesmo.***

* fonte da imagem: pinterest

o futebol moderno

para matheus barreiro

é um jogo de prós e contas

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* de simples recreação esportiva em meio a ociosos momentos de fazer lazer a arroubos e arrombos monetários intergalácticos, o futebol moderno é também o maior produtor de excrescências humanas e des. talvez o matheus, meu sobrinho, quando sugeriu o tema ao tio não esperasse por resposta diferente da. saiba, meu caro aspirante, que o futebol vai do rumor ao tumor num intervalo de um olé. é o que é. e apito, afinal.

brevíssima história do professor brasileiro para quem tem presa

de tutor-rabino-mestre-magister-a-professor-opressor-oprimido-sequela-mais-que-imperfecta-espécime-em-ex-tinta-extinção-a-sumir-num-duplo-clique-perfecto.

* fonte da imagem: redes sociais, sobre o caso da professora márcia friggi, de santa catarina, que levou um nocaute numa aula de pugilismo adolescente por um incontinente idem.

 

a origem do universo, do meu conto de vista

antes do princípio bigbang, as abelhas eram. contavam-se entre zilhões de zilhões de zoadas. erravam as contas. voltavam ao início. cantavam tudo de ovo. tinham muito tempo para assuntar. lembremos que nesse precipício eram somente as abelhas, nada a mais.

uns anos, na era himenóptera, pareciam ais. até que um melo dia uma abelhuda soltou: que tédio essa meleca toda! tanto mel, tanta doçura, e ninguém para se lambuzar. e nenhum que pusesse ordem na turma. era preciso um administrador que conduzisse a produção e o consumo devido desse todo mel. e pensavam, as abelhas, amargas da vida.

nenhum zunido se ouviu por algumas toras. o apiário era uma greve, mas breve, pois a colmeia, após um zunzunzun, que era uma espécie de sessão besta-ordinária, decidiu que era necessário inventar o homem, o humano, o apicultor, isto é. como não havia control c control v, precisaram de um vento que batesse em suas ideias a fim de saberem como fariam o que fariam.

zonzas de tanto prensar, meladas em suas ramificações plumosas, chegaram ao fato de que a invenção do homem seria a parir da força do pensamento conjunto. uma esfuziante e pensante colmeia a invocar, em impulsos elétricos, o aparecer do primeiro ser humano na terra, quer dizer, no enxame.

após um pensar coletivo, eis que surge o primeiro ser. em pé, diante das abelhas estupefatas, mas orgulhosas de seu feito, o homem primeiro a nascer não duraria muito. foi olhar aquele enxame desordenado de insetos a zunir em sua direção, que ele teve um achaque cardíaco zulminante. e morreu.

sem se darem por vencidas, decidiram pensar em dobro. e eis agora outro ser, também humano. restava saber se esse segundo exemplar estaria mesmo a fim de fazer o que devia fazer, isto é, comer e administrar o mel das abelhinhas entediadas. porém, antes de comemorarem, atentas ao erro anterior, portaram-se como ladys. abeladys, por dizer.

como nunca havia visto tanto mel assim disponível, e só para ele, de graça, o segundo homem alambuzou-se de mel e mel e mel e mel. melado, ele teve uma má digestão. não, foi uma péssima digestão. a pior que já tivera. se bem que era a única: uma digestão homérica! como não havia homero nenhum, as abelhas desconfiaram do exagero. mas, ao chegarem perto daquele afoito, silenciaram. o homem, o segundo, também sucumbiu.

mas as abelhinhas, ao contrário do que eu mesmo supunha, puseram-se a pensar coletivamente de novo. agora com mais intensidade. e eis um outro ser! humano também. um aspirante a apicultor master. mas ele era estático. era um sedentário, indolente versado em preguiças especializadas. era tudo o que a colmeia não quereria. gritavam, as abelhas, num zunido zunido. mas o homem não se movia. e então alguma abelha teve a ideia de picá-lo com umas tantas ferroadas a fim de animá-lo à sua tarefa de homem-humano, isto é, a de comer-lhes o mel superabundante e administrar o excesso. todas as outras concordaram. mas, em êxtase, erraram a dose: picaram-lhe sem contas. e o homem, o terceiro, faleceu.

exaustas, as abelhinhas  acharam melhor pedir ajuda. mas a quem? perguntou uma abelhuda, se a sós zuamos neste universo açucarado. o zunido parou outra vez. até que alguém se zangou de projetos frustrados e decidiu que esse negócio de pensar com a força do pensamento é cousa de gente douda. pensar faz mal à saúde. e o mel já não era da mesma qualidade…

de modo que houve um insigth abelhístico na colmeia: não fariam mais um ser humano, esses seres abelhudos. às favas com esses homens! havia uma nova ideia no ar. um zunido esbravejante zuniu: eis que uma só, gente da raça,  uma de nós, nos governará, bradou a atrevida. sim, alguém que está por dentro da colmeia de assuntos inerentes a nossas meladas, zoadas e ferroadas…

ligeiramente, as abelhas legitimaram uma eleição, e uma rainha. seu esposo, zangado, e não concordando com a escolha, foi ferroado por todo o proletariado, de modo que a posse da governante maior estava a salvo. entre um fluido viscoso e outros, a rainha abelhava, majestosa mente!

e foi assim que nasceu a aristocracia, mãe da oligarquia, avó do cargo comissionado. e as abelhas operárias viram que o mel não era nada bom…

Fofa!!!... ❝ Soℓ Hoℓme❞

 

* fonte da imagem: pinterest

abracadabras ao modo brasiliano

talvez um ou outros ainda ignorem o poder que as palavras têm. ou melhor, a influência que o uso e abuso delas, as palavras, causam nos altos atos dos seres humanos. fartos são os exemplos, desde o bere’shith cosmogônico hebreu até o por favor osso de cada dia. a vida é um abre-te sésamo de paraulas. e quem há de duvidar, é favor mudar de plaqueta.

dizer que não usarei de delongas neste texto é alertar ao leitor com uma palavra que o delonga a cântaros. sem mais, portantos.

as palavras e seus manejos. terceira idade é cousa de gente que pensa velho. a melhor idade agora tem rugas, cãibras, reumatismos, sorrisos dentes, e bônus nas milhas viagens.

tome cuidado com o dizer cego ao cego. cego és tu, diz o deficiente visual. o ausente auditivo diz que surdo é a mãe. nossa mãe! os seres do século presente não mais derramam, têm avc.

dizer que estamos acamados é retroceder milênios. o que há é uma certa indisposição. repare o que diz um linguista: quando um tumor está em discussão, tudo pode girar em torno das palavras benigno e maligno.

em casos muitos, o uso do eufemismo é a salvação da humanidade. eles não morreram, descansaram…

Rir até a barriga doer! Isso é um santo remédio!

li na web que o suposto presidente do brasil, em exercícios de vendas nos olhos dos outros, está a manipular o dicionário a seu favor, isto é, a nosso pavor. é cada qual no seu encanto, é um feitiçar de vocábulos, dizem os astutos. e não fará tal a ninguém. hum, sei.

a pancada ruralista é de acordo. e o fazem pelo bem, pelos bens. deles? shazam! mas palavrão é com os outros, nós somos polidos, lustrosos, luzidios. bocas bem criadas. onde já se viu falar em agrotóxico? que coisa feia! mamãe não gosta, nem dessa, nem da outra, rima avessa, garganta que coça: a sua, a minha, a dela, a nossa.

agro não é nada, mamãe! está na tv, o agrobusiness, o agronegócio, o agrocultivo, o agroecológico. mas e o… que medo de dizer esse palavrão!, desencanta a mamãe. falo com dor nos peitos, esse, esse, esse tóxico negócio. chora a mamãe, ardem seus olhos. não é para menos, esse olor de venenos. etimológico, em grego, digo à mamãe: toksikón é veneno para flechas (!). e o alvo?, indaga a progenitora.

boquialertos, cerramos o dicionário. mamãe diz, com alívio e orgulho de seu país ibérico em ver de amarelo: o léxico é vasto, o léxico é vário; e o agro, límpido agente, fitossanitário.

mamãe!, assim sim que eurekas lhe entendo, o vocabular objecto, directo, erecto, flecheiro.

entonces, se é para os bens da ração, decretemos ao povo que phito.

:(

* fonte da imagem: pinterest

tóhu vavóhu

tradição é uma palavra-viagem. isto é, ela tem idas e vi(n)das. é um desses vocábulos polissêmicos, explosivos, multifacetados. ora ele está perpassando um efusivo discurso que o legitima como o inquebrantável; noutrora ele é dessacralizado num multigirar dialogante que o desmonta inteiro. plural, vário, numeroso, o vocábulo. e por isso mesmo efusivo. e por isso mesmo explosivo. e por isso mesmo corrosivo.

a tradição, dizem os entusiastas, é a mãe de todas as virtudes. aquilo que é legado de uma geração a outra, tal e qual, sem tirar nem dor. herdades transmitidas de modo a serem sempre verdades. em certas religiões, a tradição é o conjunto de doutrinas essenciais ou dogmas não explicitamente consignados nos escritos sagrados, mas que, reconhecidos e aceitos por sua ortodoxia e autoridade, são, por vezes, usados na interpretação dos mesmos. a definição é do houaiss. o destaque é do curvilíngua, sempre atento a esses por/maiores.

neste breve exemplar, quero clarear uma (in)certa tradução do bere’shith. sim, do livro primevo da torah, o pentateuco hebreu, consolidado e aculturado ao cristianismo neotestamentário, traduzido (ou mal) em versões lassas, baças, às traças. salvo uns poetas. yes, a escrita hebreia é um todo poético. e das mais concretas, fulminando mil pensares numa única palavra. polissêmica sonora a espantar tradutores-traidores. espécime de síndrome do arrojo ausente.

vejamos o verso em questão: VËHÅÅRETS HÅYËTÅH TOHU VÅVOHU. Trata-se, obviamente, de uma transliteração do hebraico, idioma semítico com alfabeto próprio, ao caractere latino. é o princípio do verso segundo da torahVËHÅÅRETS HÅYËTÅH: e a terra era. o nosso foco está nas outras duas palavras, título deste post: TOHU VÅVOHU. 

como é notável, as duas palavras são dialogantes, irmanadas fônica e musicalmente. mais que isso: arquitextualmente. a arqui/textura da palavra-valise, da palavra-viagem como eu a denominei acima. note-se: tOHU / vavOHU. uma clama à outra. som e imagem em perplexidades semânticas num rogo, num jogo de paraulas polissemíticas.

TOHU, segundo a gramática hebraica, significa CAOS, VAZIO, e vem do verbo TAHAH, cujos possíveis significados são: admirar-se, assombrar-se, pasmar, espantar-se; pensar; refletir; arrepender-seVÅVOHU, em sequência, dá a ideia de CAOS ABSOLUTO, DESORDEM, CONFUSÃO. e de que maus modos os tradutores/traidores redesenharam esse estupendo prisma hebreu para seus idiomaternos? veremos, pois.

o senhor joão ferreira annes d’almeida, o queridinho português dos brasileiros pentecostais, em suas inúmeras versões, desentende: e a terra estava vasta e vazia (!). depois, revisto, e a terra era sem forma e vazia. no brasil figuram, ou melhor, desfiguram inúmeras (di)versões em português corrente. temos, e.g., a tradução da bíblia medieval portuguesa, do século xiv, que diz que a terra era vãa e vazia, quer dezer, que a feitura do mundo era sem proveito, e sem fruito, e desapostada. noutro extremo, eis a nova tradução na linguagem de hoje: a terra era um vazio, sem nenhum ser vivente, e estava coberta por um mar profundo. esta uma paráfrase, longe de ser uma aproximação do texto hebreu. antes, uma distorção distante, dissonante.

há também a versão em português da king james: a terra, entretanto, era sem forma e vazia. in english: and the earth was without form, and void. a versão da bíblia judaica completa, do senhor david h. stern, um judeu messiânico, diz, frouxamente: a terra era informe e vazia. a celebrada (equivocadamente) nova versão internacional (nvi ou niv) aponta: era a terra sem forma e vazia. a bíblia de jerusalém, uma versão católica apostólica romana, assim expõe: ora, a terra estava vazia e vaga. em nota a essa tra(d)ição, ela diz: em hebraico: tohû e bohû, “o deserto e o vazio”, expressão que se tornou proverbial para toda falta de ordem, sobretudo quando é considerável.

as outras inversões católicas esboçam: a terra estava informe e vazia (ave maria); a terra, porém, estava informe e vazia (mattos soares); a terra porém era vã e vasia (padre antonio figueiredo). as duas últimas são traduções a partir do latim da vulgata. e por falar nela: terra autem erat inanis et vacua. um vazio, um vácuo. informe e deserta (la sacra bibia); soledad y caos (la santa biblia). a mesma cousa sucede, sem sucesso, com versões protestantes: desordenada y vacía (reina valera); informe et vide (louis segond); una cosa deserta e vacua (giovanni diodati); und die erde war wüst und leer (luther)…

e assim, o curvilíngua viu que todas as tentativas ingênuas e melindrosas de traduções da tradição eram sem fôrma, em cem formas, azias…

"Morango e Estrelas"

eis que em meio a esse turbilhão de nada de necas surgem duas excelentes versões dignas de apreço e estupefação. são dois exemplos que nos fazem perceber que é possível dialogar com a impactante orquestração original hebraica do texto em análise. ainda que transpostas, são crias e criações de relevo. notáveis, os poetas que as desenharam. sim, é graças à poesia, ofício de faber que reQUER sensibilidade e inquietação, sobretudo diante de um desafio de operação tradutória de um texto radical,  que o hebraico cosmogônico, a tilintar pedras de toque, de torques, refaz seu percurso em letras brasileiras. a poesia é edênica. adân, seu proto-poeta.

a primeira menção que faço é a tradução de andré chouraqui, esse poeta cosmopolita (1917-2007), cuja recriação dos originais bíblicos para o francês, acrescida de exaustivos comentários, é ignorada no brasil. leiamos o princípio de sua musicalidade tradutora:  Entête Elohîms créait les ciels et la terre, la terre était tohu-et-bohu, une ténèbre sur les faces de l’abîme, mais le souffle d’Elohîms planait sur les faces des eaux. Elohîms dit : « Une lumière sera. » Et c’est une lumière. em comentário a esse trecho, chouraqui diz: rashi, colado ao jogo das raízes, indica: tohu significa espanto, estupefação – em francês antigo estordisonbohu significa vazio e solidão. o homem é tomado de estupefação e de horror em presença do vazio.

apesar de chouraqui ter mantido os vocábulos originais em sua tradução ao francês, em português, na tradução do também poeta carlito azevedo, a partir do texto francês de chouraqui, temos: a terra era desordem e deserto. desordem/deserto. DESordem / DESerto. desORdem / desERto. uma reconstrução digna de admiração. é possível sentir o esforço tradutor, o empenho honesto, o ardor pela justaposição frente ao original. a leitura é agradável. é um destaque diante das outras versões citadas anteriormente em português. o poeta carlito azevedo desfaz as impossibilidades. isso requer ânimo e alento a desvincular uma tradição petrificada; se quiser, uma tradição vaga, informe, vazia

a outra re-criação, ou transcriação, é a do poeta brasileiro haroldo de campos (1929-2003). ele re-criou vários textos bíblicos do hebraico para um português brasileiríssimo, permeado das técnicas modernas da poesia, da tradução criativa, da linguística de saussure, de jakobson. além dos três primeiros versos da cosmogonia hebraica (bere’shith, a cena da origem), haroldo re-criou também a cena da torre de babel, o magistral capítulo xxxviii do livro de jó, a íntegra do poeta qohéleth (eclesiastes), e o shir hashirim, o cântico dos cânticos. falarei aqui de sua re-criação do verso em questão: TOHU VÅVOHU. 

diz o poeta haroldo de campos sobre sua operação re-criadora: traduzi thóhu vavóhu por LODO TORVO, tentando redesenhar o jogo fonossemântico do original. vazio, nudez, desolação são os significados tradicionalmente atribuídos a este sintagma, constituído de palavras quase-sinônimas. henri meschonnic, que salienta a conotação matéria informe, dá uma excelente tradução: et la terre / était boue / et trouble. na bíblia de jerusalém, lemos: ora, a terra estava vazia e vaga, sentimos que o esforço aliterativo esbarra num atravanco indesejável: estaVA VAzia… martin buber, preocupado com a oralidade (gesprochenheit) do texto bíblico, traduziu por WIRRNIS und WÜSTE (confusão e deserto) esse par de vocábulos, numa primeira versão, em 1936; na edição revista, publicada em 1954, a solução é aprimorada: IRRSAL und WIRRSAL (turvação e confusão).

LODO TORVO, a re-criação de haroldo de campos para o incomparável TOHU VÅVOHU é significativa. LODO significa LIMO, que é uma mistura VISCOSA, que tem ou secreta visco, SEIVA; esta, do latim sapa, ae, vinho reduzido pela cocção (o cozer). eis uma palpável analogia com a cosmogonia, ou seja, os ingredientes estão por aparecer, mas a faísca que antecede o cozimento já está a crepitar nesse visco, nessa seiva a escorrer, a espalhar-se. já a palavra TORVO vem do latim torvus, que olha de esguelha, que tem olhar ameaçador; terrível; severo, austeroque apresenta aspecto sombrio; escuro, enegrecidoque causa ou infunde terror; iracundo, terrível. 

a musicalidade com a qual haroldo de campos pretendia dialogar, a meu ver e ouvir / ouver, foi suprida pela solução LODO TORVO. a vocalização está sobreposta. o desenho é dialogante. a estrutura semântica é resolvida. longe de toda aquela lassidez e apatia das supostas reconfigurações citadas no início, contemplamos uma re-criação que merece nosso aplauso, nosso louvor, nossa admiração. mais que isso: nossa estupefação diante desse haroldo-lodo-torvo!

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* o poeta haroldo de campos.

 

 

* o curvilíngua também quer fazer (p)arte do time dos artesãos da linguagem, e para isso recorre à sintaxe esboçada nesta tirolesa a fim de dar o seu torque re-criador:

e a terra era caos e naos

The Torah:- the first five books of the Jewish scriptures, the Books of Genesis, Exodus, Leviticus, Numbers and Deuteronomy. It is in Christianity as the Pentateuch.

 

 

 

quem quer dinheiro?

o dinheiro não diminui a extrema velhice,
não cura doença incurável,
não resolve a angústia do sofrimento psíquico.

o dinheiro realmente não é tudo.
tudo é a falta de dinheiro.

millôr fernandes, filósofo-humorista e irritante guru do meyer, 1923 – 2012.

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* o pensamento acima é do livro a bíblia do caos / millôr definitivo, editora l&pm.

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que credo praticas, curvilíngua?

credo, isso lá é pergunta que se caça?

ainda assim, vou lhe dar um vislumbre de umas minhas veredas.
por falar nelas, as veredas, lembrei do rosa.
lá no grande sertão, o guimarães assume um exuberante ecumenismo pela toante voz de seu alter-eco, o riobaldo-tatarana:

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma… Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? – o que faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço, executado. Eu não tresmalho!

Nonada, Xilogravura de Arlindo Daibert

e que direi de mim? creio em idas passadas, sou uma espécie de encardecista-médio. ou, em lapsos de meditar/ações, penso que já fui um longe budista. seria eu, em brados de oriente-se!, um barbado moço-humano? ou, quem é que sabe?, um réu-pentecostal. talvez eu queira inferir que estou a mergulhar num ganges ideologicamente induzista. nada disso! sou mesmo um advento a proclamar ainda do lavrador do mundo. sou um ímã, espécie insólita, exemplar aro de um papa-palavras a religar o espanto epifânico do sagrado, teofanicamente… amém.

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* fonte da imagem: pinterest

p.leminski

inutensílio (f r a g m e n t o s)

a burguesia criou um universo onde todo gesto tem que ser útil
tudo tem que ter um para quê
e o princípio da utilidade corrompe todos os setores da vida
nos fazendo crer que a própria vida tem que dar lucro

a poesia é o princípio do prazer no uso da linguagem
e os poderes deste mundo não suportam o prazer
a sociedade industrial
centrada no trabalho servo-mecânico
dos usa à urss
compra, por salário
o potencial erótico das pessoas
em troca de performances produtivas
numericamente calculáveis

quem quer que a poesia sirva para alguma coisa
não ama a poesia
ama outra coisa

os que exigem conteúdos querem que a poesia produza um lucro ideológico

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* a citação acima, (des)fragmentada pelo curvilíngua, é do livro ensaios e anseios crípticos, lido e relido esta semana. para ler a íntegra, paulo leminski. in/vista. livro é liber/dade. livro, em latim, é liber.

etc.

o curvilíngua subscreve:
a poesia não serve
a ninguém
é in
d e p e n
dente

 

superstições de antigas mentes

os avós maldiziam. nós, meninos, escutávamos. falavam, os tios e avós, palavrões sacros envolvidos em mantos de água benta, rezas, fados. um ou outros proibires, todos eles, um saco. olhar no espelho, quando chove, entorta a boca, dá inchaço. o medo pairava. mas paravam? seguiam, os titios, em sua ritualística ladainha de não toques, não proves, não tasques. o par de chinelos, virado ao contrário, a mãe morria, era fato. até hoje, a mãe morta, o chinelo vira, já me entorta, quase enfarto. manga com leite, a gente morre. eu sonhava morrer, fiapos de manga pelos dentes, olhar sereno. onde há veneno, o leite escorre. o pé esquerdo, nunca acorre, antes dele, o direito. é assim que a vida acolhe. mas recusar, aviso alheio, é morte certa, é cova. colar na escola? isso é pecado, vai pro inferno! hum, se esse é o recado, fui pôr à prova. e, pra vocês, ditos mal ditos: uma ova!

as vezes tudo o que queremos é silêncio e um bom livro:

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